segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O horror italiano


© EPA/ Etorre Ferrari



Como se sabe, as Leis italianas respeitantes à imigração foram recentemente alteradas, com o propósito de tornar mais dificil a integração, entrada e residência de imigrantes no país, criminalizando a sua condição irregular. Neste novo quadro, os funcionários públicos estão obrigados a denunciar cidadãos imigrantes em situação irregular, proibiu-se a prestação de cuidados de saúde e a celebração de contratos de arrendamento com imigrantes sem documentos e tornou-se mais difícil, morosa e kafkiana a regularização destes cidadãos.

Não obstante, centenas de milhares de cidadãos imigrantes continuam a chegar a Itália para aí viverem e trabalharem, sem que a classe política consiga perceber a dinâmica do fluxo – ou sem querer perceber o que, tendo o mesmo resultado, revela uma atitude que não é despicienda para a análise da questão.

Em Rosarno, no sul de Itália, vivem centenas de cidadãos imigrantes, na sua esmagadora maioria em situação irregular por falta de preenchimento de requisitos burocráticos reclamados pelas leis italianas;

Em Rosarno, muitos destes homens e mulheres trabalham, excercem uma efectiva actividade laboral - sobretudo na apanha de fruta - auferindo, de quando em vez, cerca de 25 € por dia;

Em Rosarno, estas pessoas vivem em fábricas abandonadas ou em barracas, em condições de vida degradante e desumana, sem água, aquecimento, condições básicas de higiene; são mal tratadas pelas entidades patronais, pelos vizinhos, não têm acesso a serviços de saúde - são diariamente marginalizadas e ostracizadas;

Em Rosarno, estas mulheres e homens não podem reclamar melhorias de salários, pagamento de salários em atraso, cumprimento de horários e jornadas legais de trabalho – e não podem, precisamente, porque sobre eles pende a espada da situação de indocumentados;

Em Rosarno, muitos destes cidadãos esperam e desesperam pela obtenção e renovação de documentos – o novo quadro jurídico aumentou os prazos para a concessão de "papeis", perpetuando no tempo a regularização daqueles que já preenchem os infindáveis e humilhantes requisitos necessário para viverem com um mínimo de dignidade;

Em Rosarno, estes homens e mulheres chegaram ao limite do suportável – e deram um murro na mesa! Fizeram a única coisa que poderiam fazer: vieram para as ruas dizer “Basta! Não somos animais”.

Depois dos gritos de desespero da comunidade imigrante, os "novos vigilantes" italianos decidiram montar "caça ao homem" e, com recurso a armas de fogo, perseguir os manifestantes à boa maneira das milícias fascistas dos idos anos 20 e 30;

E perante esta “tensão”, o que resolve fazer o governo italiano? Nada mais, nada menos do que chamar as suas tropas ao local e reencaminhar os cidadãos imigrantes para um centro de acolhimento (eufemismo e tique moderno, utilizado para descrever centros de detenção, ou seja, verdadeiras prisões).

Vejamos, então, a "lógica" deste encadeamento: imigrantes são “contratados” para a apanha de fruta, recebem – quando recebem – salários miseráveis, são mal tratados, vivem em condições desumanas e mendigam por papéis onde lhes reconheçam uma réstia de humanidade, onde carimbem uma autorização para acederem à condição de ser humano.

Quando levantam a voz para denunciar tamanha barbárie, são atacados com balas por milícias civis e detidos pela polícia do Estado.

Os tristes acontecimentos a que assistimos são consequência do endurecimento das regras sobre imigração; as medidas adoptadas pelo Estado Italiano apenas perpetuam a exploração a que os imigrantes são votados no país, mantendo a precariedade das relações laborais, dando cobertura aos baixos (ou nenhum…) salários pagos, ao mesmo tempo que potenciam discursos e prácticas racistas e xenófobos.

Não, o problema não reside na existência de cidadãos imigrantes e indocumentados! O problema está no sistema que os explora, que os trata como animais e que os empurra para um estado precário permanente, de ausência de direitos e de luta constante em duas frentes: pela sobrevivência e, sobretudo, pela dignidade.

Estamos cientes da gravidade dos factos – e seguros de que bastará que não se fale neles, para que a situação se torne incontrolável. Neste quadro de terror, é urgente agir: a inércia e o silêncio torna-nos a todos culpados. E enquanto ficarmos quietos perante esta imundice, seremos todos "ilegais".

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